TORRENTIAL E A VELOCIDADE AMERICANA
- por Sergio Barcellos
Transcrito do site Raia
Leve
Quem já teve oportunidade de assistir, sabe que o Prix Jean Prat, grama, sentido horário, é uma das provas mais seletivas de Grupo I do calendário europeu. Quase sempre corrido num ritmo que os franceses chamam de “trem do inferno”, o Jean Prat tem como característica ser disputado no percurso pouco comum dos 1.800 metros e na traiçoeira pista de Chantilly, com seus aclives e declives e uma longa reta que parece ter sido feita sob medida para confundir os incautos.
Não bastasse isto, a prova costuma misturar milheiros de elite da Europa aos especialistas da meia distância, aumentando a dificuldade do teste. Para vencer o Jean Prat, é necessário contar com um animal que tenha velocidade para acompanhar de perto os da frente e exiba capacidade de mudar de marcha e acelerar no final.
Foi este o Grupo I ganho aos 3 anos de idade, em 1995, por Torrential
(Gulch e Killaloe, por Dr.Fager e Grand Splendor, por Correlation e Cequillo,
por Princequillo), hoje alojado no Haras Santa Rita da Serra (Afonso Cesar
Burlamaqui) e pertencente a um condomínio de criadores.
Como Torrential já aparece como líder das estatísticas de pais de 2 anos no eixo Rio-São Paulo, e sua filha Baby Victory é a líder da geração feminina em Cidade Jardim, parece interessante conhecer um pouco mais sobre ele.
Origens:
Torrential é o estereótipo do conceito americano de criar, não só do ponto de vista físico, como também do funcional. O “Timeform” o descreve como um “indivíduo grande, robusto, atraente” – o que pressupõe equilíbrio e estrutura muscular acima da média – além de aponta-lo como um “grand looker”, ou seja, de “ótima aparência”. Numa palavra, um bonito cavalo.
Não foi por outra razão que ele se tornou o “yearling” mais caro de Gulch nos leilões de Keeneland, em julho de 1993. Arrematado pelo Sheik Mohammed al Maktoum por US$ 375 mil, defendeu nas pistas da Inglaterra e EUA as cores grenat, mangas e boné branco de seu proprietário, treinado pelo competente John Gosden.
Gulch, o pai de Torrential, é um dos mais importantes “sprinters” descendentes diretos de Mr. Prospector, ganhador de 7 Grupos I, dos 2 aos 4 anos, entre os quais a Breeders' Cup Sprint e o Metropolitan Handicap. Na reprodução, Gulch brilhou tanto quanto nas pistas, gerando mais de 50 ganhadores de Grupo em todo o mundo. Seu filho, Thunder Gulch, “ Champion 3 Years Old”, hoje reprodutor no Coolmore Stud, levantou, entre outros clássicos, o Kentucky Derby (2.000 metros, areia) e o Belmont Stakes (2.400 metros, idem), primeira e terceira provas da tríplice-coroa americana.
O avô-materno, Dr. Fager - que está entre os animais mais rápidos já vistos num hipódromo –, provém de uma linhagem desenvolvida praticamente dentro dos Estados Unidos, que começa em Questionaire e prossegue com Free For All e Rough'n Tumble. Dr. Fager é livre do sangue Northern Dancer, como de resto todo o pedigree de Torrential.
Killaloe, a mãe, produziu o conhecido Fappiano (por Mr Prospector), de quem Torrential é, portanto, irmão-materno . Fappiano venceu 10 vezes, dos 1.200 aos 1.800 metros, e abriu seu caminho na reprodução ao liderar as estatísticas americanas de pais de 2 anos em 1985 e 1989. Entre os melhores Fappianos, encontram-se Tasso, campeão 2 anos da América em 1985 e Unbridled, “ Champion American Horse” de 1990, entre outros notáveis corredores.
A segunda-mãe, Grand Splendor (por Correlation), ganhou 6 corridas e produziu Gonfalon, mãe do conhecido Ogygian, ganhador e reprodutor clássico.
Animais como Torrential pertencem a uma dinastia construída, antes de tudo,
para a chamada “velocidade americana”, onde desenvolvimento muscular acelerado; capacidade de aguentar treinamento; habilidade acima da média
aos 2 anos de idade; e vocação para vencer na distância clássica-padrão dos 2.000 metros, constituem a tônica.
Cavalos construídos desta forma, têm demonstrado ser um importante ativo da moderna criação mundial, desde que o lendário Arthur “Bull” Hancock, da Clairborne Farm, fixou as bases deste novo tipo de indivíduo na segunda metade do século XX.
Campanha e aptidões:
Como autêntico filho de Gulch, em mãe por Dr. Fager, Torrential estreou vencendo em 1.400 metros, Doncaster, Inglaterra, no começo de março de 1995.
Mais alguns dias, a distância subiu para 1.800 metros e ele tornou a vencer com facilidade, desta vez em Ripon.
Na terceira saída, foi a Sandown, em maio, para o Tresher Classic Trial (Grupo III), em 2.000 metros, e acidentou-se, entrando descolocado (quinto lugar).
As expectativas de seus responsáveis, porém, mantiveram-se intactas após o Tresher, pois ele foi inscrito no Jean Prat, de Chantilly, em junho, em parelha com Annus Mirabilis, o outro representante do Sheik Mohammed na prova. Ter saído direto de um Grupo III para um difícil Grupo I, mesmo após um acidente de raia e uma descolocação, dá bem a medida da confiança de Gosden no potro. E ele correspondeu de forma admirável.
Corrido no bloco intermediário, acompanhou o ritmo dos ponteiros, aproximou-se deles na reta e foi alcança-los em cima do disco, ganhando de Annus Mirabilis e do bom milheiro Laheeb, com Bobinsky e Valanour a seguir. A distância entre os quatro primeiros colocados não chegou a um corpo.
A próxima saída às pistas ocorreu no Grand Prix de Paris (Grupo I), 2.000 metros, em Longchamp, segunda etapa da tríplice-coroa francesa, onde ele foi batido por Valanour e Singspiel (ambos ganhadores de Grupo I).
Logo depois, atravessou o Atlântico e correu, em 23 de junho de 1995, o American Derby (Grupo II), em Arlington, Virginia, 1.900 metros, perdendo para Golden and Steel, a quem concedia 3 quilos. Nesta prova, sofreu um profundo corte no jarrete ao largar do partidor, sugerindo aos observadores que poderia ter feito melhor sem o incidente.
Propriedade de uma coudelaria-gigante com presença quase constante em todas as provas de Grupo do calendário mundial – e que, talvez por isso mesmo, não se importe em explorar ao limite da exaustão seus bons cavalos –, Torrential correu seis vezes em menos de quatro meses, em dois continentes, batendo-se contra os melhores de sua geração, no primeiro semestre de 1995. Ao final desta curta, embora fatigante, campanha foi transferido para Dubai, a fim de recuperar-se do ferimento no jarrete e descansar.
As aptidões e a forma de atuar de Torrential foram resumidas da seguinte forma pelos analistas do Timeform: “ Se vier a ganhar outro Grupo I, provavelmente isto ocorrerá em 1.900 ou 2.000 metros, sem dúvida suas melhores distâncias.” Na cotação do handicap-livre europeu dos 3 anos, ele alcançou 117 libras-peso (58,5 quilos, aproximadamente).
Recuperado, trocou de treinador (saiu Gosden, entrou Said Bin Surour), e reapareceu em Dubai para ser segundo no Al Futtaim Trophy, 2.000 metros, Nad El Sheba, para o excelente Halling (ganhador de Grupo I, hoje reprodutor). Inscrito na Dubai World Cup vencida pelo campeão e recordista mundial de somas ganhas, o famoso Cigar, entrou descolocado (8º lugar). Foi sua última corrida.
Reprodução:
Levado para a reprodução nos EUA, Torrential produziu 124 ganhadores de 250 provas – vários deles freqüentadores de pattern races naquele país – e de US$ 2,9 milhões em prêmios. Alguns de seus produtos americanos foram exportados para a Austrália, onde prosseguem em campanha.
Sua geração 2003 é a primeira nascida no Brasil.
Descendente de Mr Prospector, via Gulch; ganhador de Grupo I na Europa; freqüentador assíduo da primeira turma de sua geração no hemisfério norte; já testado na reprodução nos EUA; de proporções e tamanho perfeitos, bela cabeça e grande presença. São estas as credenciais com que Torrential se apresenta na criação brasileira. Convém prestar atenção e acompanhar de perto a evolução de seus filhos entre nós.
Torrential pertence a um grupo de criadores e proprietários brasileiros, entre os quais se encontram os Haras Santa Rita da Serra, Tributo à Ópera, Santa Maria de Araras, Valente, Cifra, LLC, Curitibano, Stud Correias e Carlos dos Santos.
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